Retrospectiva Joaquim Pedro de Andrade e Federico Fellini ocupa a Cinemateca Brasileira - de 15 a 26 de julho

Sete títulos de Federico Fellini serão exibidos na tela externa da instituição em cópias restauradas: Satyricon, E La Nave Va, Roma, A Doce Vida, Os Boas Vidas, Julieta dos Espíritos e 8½

Terão exibição em 35mm: Os Palhaços, de Federico Fellini e Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade

A Cinemateca Brasileira e o Instituto Italiano di Cultura di San Paolo apresentam uma retrospectiva dupla dedicada a Federico Fellini e Joaquim Pedro de Andrade, de 15 a 26 de julho. A mostra propõe aproximar suas obras, explorando afinidades em torno do realismo fantástico e de suas distintas buscas por uma identidade nacional, tanto no plano político quanto no poético.

A programação reúne dois cineastas que, em contextos históricos e culturais distintos, transformaram o cinema em um campo de reflexão sobre a imaginação, a memória e a construção das identidades coletivas. Federico Fellini (1920–1993), nascido em Rimini, iniciou sua trajetória como roteirista no pós-guerra italiano e rapidamente se tornou uma das figuras centrais do cinema moderno. Partindo do neorrealismo e suas colaborações com Roberto Rossellini, Fellini desloca progressivamente esse paradigma em direção a uma poética própria, na qual o gesto autobiográfico funciona menos como confissão e mais como estratégia formal.

Seu narrador que diz “eu”, frequentemente travestido em alter ego de figuras como Guido ou Marcello, torna-se um dos dispositivos mais eficazes de sua obra. Para o grande público, ele oferece a chave de leitura de um suposto testemunho pessoal contínuo, no qual a subjetividade pareceria garantir uma aura de realidade à mais radical invenção, legitimando incongruências, inverossimilhanças, obsessões e excessos como parte de uma mesma categoria poética.

Ao mesmo tempo, essa centralidade do “eu” opera de modo ambíguo: Fellini não afirma simplesmente o individualismo, mas o coloca em crise, justamente em um contexto em que a sociedade contemporânea o exalta ao mesmo tempo em que o dilui em um sistema de consumo e imagens onde as vontades se tornam indistintas. Nesse sentido, sua obra parece resgatar o subjetivismo, mas paradoxalmente sem subjetividade estável: o “eu” não se fixa, se multiplica e se dispersa.

Filmes como Os Boas Vidas, A Estrada da Vida, Noites de Cabíria, A Doce Vida, 8½, Amarcord e Julieta dos Espíritos reinventam o realismo ao fazer do sonho, da memória e do espetáculo dimensões inseparáveis da experiência humana. Nesse deslocamento, o que se convencionou chamar de realismo fantástico não aparece como fuga do real, mas como um modo de torná-lo mais legível em sua instabilidade constitutiva: a realidade não é negada, mas revelada como montagem, como delírio partilhado e como encenação contínua do vivido. A imagem, em Fellini, abriga sempre mais possibilidades do que o roteiro consegue prever.

No Brasil, Joaquim Pedro de Andrade (1932–1988) surge no contexto do Cinema Novo, movimento que buscava pensar o país a partir de suas contradições sociais, históricas e culturais. Filho do modernista Rodrigo Mello Franco de Andrade, Joaquim Pedro herda também uma tradição intelectual voltada à construção crítica da identidade nacional. Sua obra atravessa diferentes gêneros do cinema brasileiro - do documentário à ficção ensaística, da antropologia à sátira - em filmes como O Mestre de Apipucos, O Poeta do Castelo, Couro de Gato, Garrincha, Alegria do Povo, Cinema Novo, O Padre e a Moça, Macunaíma, Os Inconfidentes, Guerra Conjugal, Vereda Tropical, O Aleijadinho e O Homem do Pau-Brasil. Em todos eles, o Brasil aparece menos como tema fixo do que como problema em construção: uma identidade atravessada por tensões entre modernidade e tradição, erudição e cultura popular, mito e história.

Entre Fellini e Joaquim Pedro, as aproximações não se dão por influência direta, mas por afinidades estruturais. Ambos tensionam os limites do realismo cinematográfico, transformando o visível em matéria maleável, permeada por fantasia, alegoria e crítica cultural. Aqui, o realismo fantástico pode ser compreendido menos como gênero do que como procedimento: uma forma de tornar visível aquilo que o realismo estrito não consegue conter: o excesso, o sonho, a memória deformada, a história em estado de ficção permanente. O que parece documento se contamina de invenção; o que parece invenção revela uma dimensão histórica concreta. Se Fellini dissolve o neorrealismo em uma poética do imaginário autobiográfico e coletivo, Joaquim Pedro desloca o impulso programático do Cinema Novo para uma reflexão mais ambígua e crítica sobre as imagens do Brasil, onde o popular, o erudito e o histórico convivem em constante fricção.

Há ainda um ponto de contato decisivo na maneira como ambos trabalham a ideia de identidade nacional. Em Fellini, a Itália se apresenta como um teatro de excessos: provinciana e cosmopolita, devota e profana, monumental e grotesca. Em Joaquim Pedro, o Brasil surge como narrativa em disputa, marcada por projetos modernistas, pelo barroco mineiro, pela antropofagia e pelas promessas e fracassos da modernização. Em ambos os casos, a identidade nacional não é essência, mas construção instável, frequentemente irônica e sempre contraditória.

Porém, há uma distinção fundamental em suas abordagens. Enquanto Joaquim Pedro investiga o Brasil como problema histórico e projeto intelectual, Fellini desconfia da própria ideia de uma identidade italiana unificada. Herdeira de tradições regionais e de antigas cidades-Estado, a Itália que emerge em seus filmes não constitui um programa político, mas um território afetivo e imaginário. Mitômano, Fellini construiu em torno de si uma persona pública tão poderosa que talvez tenha criado a primeira verdadeira "grife" de autor do cinema moderno: pouco importava se o filme se chamava Satyricon, Roma ou Casanova; o título principal era sempre "de Fellini". Seu nome tornou-se a garantia de um cinema elevado ao estatuto de arte pessoal e intransferível, capaz de desafiar as convenções da narrativa clássica, recusando a progressão dramática baseada na identificação do espectador com as personagens.

Se Fellini inventa uma autobiografia imaginária como forma de pensar a Itália, Joaquim Pedro faz da própria cultura brasileira sua matéria de ficção crítica. Seus filmes revisitam e reinventam ícones da cultura brasileira, como Gilberto Freyre em O Mestre de Apipucos, Manuel Bandeira em O Poeta do Castelo, Tiradentes em Os Inconfidentes, Aleijadinho em O Aleijadinho e Oswald de Andrade em O Homem do Pau-Brasil. E também heróis simbólicos e não menos reais e históricos, como Macunaíma, o Vampiro de Curitiba de Guerra Conjugal ou o inacabado Bento de O Imponderável Bento contra o Crioulo Voador. Em sua filmografia, documento e invenção, história e mito coexistem num mesmo plano, produzindo uma ficção crítica do Brasil. Também por isso Joaquim Pedro rejeitava as fórmulas narrativas de Hollywood, especialmente o abuso do plano e contraplano, tratando o posicionamento da câmera e a montagem não apenas como escolhas estéticas, mas como decisões éticas e políticas sobre a maneira de olhar o país.

Como Fellini em relação ao neorrealismo italiano, cuja sofisticação, lirismo e aproximação ao realismo fantástico acabaram por deslocar um movimento estético aparentemente incontornável, Joaquim Pedro também ocupa uma posição singular dentro do Cinema Novo. Sua obra não se limita à adesão ao projeto coletivo, mas o reinterpreta a partir de uma linguagem própria, marcada pelo humor crítico, pela montagem reflexiva e por uma constante interrogação sobre as imagens do Brasil.

A retrospectiva apresenta cópias restauradas de alguns dos filmes mais importantes dos dois diretores, oferecendo ao público a oportunidade de revisitar esse diálogo imaginário entre Roma e Rio de Janeiro, entre Rimini e Minas Gerais, entre o delírio autobiográfico e a crítica histórica.

A Cinemateca contou também com a parceria da FJ Cines, que gentilmente cedeu suas cópias restauradas de A Doce Vida, 8½, Os Boas Vidas e Julieta dos Espíritos.

A programação é gratuita e os ingressos são distribuídos uma hora antes das sessões. 


CINEMATECA BRASILEIRA

Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Mariana


Horário de funcionamento

Espaços públicos: de segunda a segunda, das 08 às 18h

Salas de cinema: conforme a grade de programação.

Biblioteca: de segunda a sexta, das 10h às 17h, exceto feriados


Sala Grande Otelo (210 lugares + 04 assentos para cadeirantes)

Sala Oscarito (104 lugares)

Espaço Alberto Cavalcanti (Área externa) (300 lugares)

Retirada de ingresso 1h antes do início da sessão


Quarta-feira, 15 de julho

17h30 _ Sala Grande Otelo _ Macunaíma (35 mm)

19h _ Espaço Alberto Cavalcanti _ A Doce Vida (restaurado)


Quinta-feira, 16 de julho

15h _ Sala Grande Otelo _ A Trapaça

17h30 _ Sala Grande Otelo _ Os Palhaços (35 mm)

20h _ Espaço Alberto Cavalcanti _ Roma de Fellini (restaurado)

 


Sexta-feira, 17 de julho

15h _ Sala Grande Otelo _ Abismo de um Sonho

17h30 _ Sala Grande Otelo _ O Homem do Pau-Brasil 

20h _ Espaço Alberto Cavalcanti _ Amarcord


Sábado, 18 de julho

17h30 _ Sala Grande Otelo _ A Estrada da Vida 

20h _ Espaço Alberto Cavalcanti _ 81/2 (restaurado)


Quarta-feira, 22 de julho

17h30 _ Sala Grande Otelo _ Guerra Conjugal 

20h _ Espaço Alberto Cavalcanti _ Satyricon de Fellini (restaurado)


Quinta-feira, 23 de julho

15h _ Sala Grande Otelo _ Ensaio de Orquestra

17h30 _ Sala Grande Otelo _ Os Inconfidentes 

20h _ Espaço Alberto Cavalcanti _ Noites de Cabíria 


Sexta-feira, 24 de julho

15h _ Sala Grande Otelo _ Entrevista

17h30 _ Sala Grande Otelo _ O Padre e a Moça 

20h _ Espaço Alberto Cavalcanti _ Os Boas Vidas (restaurado) 


Sábado, 25 de julho

15h _ Sala Grande Otelo _ Cidade das Mulheres (restaurado)

18h _ Espaço Alberto Cavalcanti _ O Poeta do Castelo; O Mestre dos Apipucos; O Aleijadinho; Couro de Gato; Vereda Tropical

20h _ Espaço Alberto Cavalcanti _ Julieta dos Espíritos (restaurado)


Domingo, 26 de julho

15h _ Sala Grande Otelo _ Histórias Extraordinárias

17h30 _ Sala Grande Otelo _ A Linguagem da Persuasão; Brasília, Contradições de uma Cidade; Cinema Novo; Garrincha, Alegria do Povo

20h _ Espaço Alberto Cavalcanti _ E La Nave Va (restaurado) 


SOBRE A CINEMATECA BRASILEIRA 

A Cinemateca Brasileira, maior acervo de filmes da América do Sul e membro pioneiro da Federação Internacional de Arquivo de Filmes – FIAF, foi inaugurada em 1949 como Filmoteca do Museu de Arte Moderna de São Paulo, tornando-se Cinemateca Brasileira em 1956, sob o comando do seu idealizador, conservador-chefe e diretor Paulo Emílio Sales Gomes. Compõem o cerne da sua missão a preservação das obras audiovisuais brasileiras e a difusão da cultura cinematográfica. Desde 2022, a instituição é gerida pela Sociedade Amigos da Cinemateca, entidade criada em 1962, e que recentemente foi qualificada como Organização Social.

O acervo da Cinemateca Brasileira compreende mais de 60 mil títulos e um vasto acervo documental (textuais, fotográficos e iconográficos) sobre a produção, difusão, exibição, crítica e preservação cinematográfica, além de um patrimônio informacional online dos 120 anos da produção nacional. Alguns recortes de suas coleções, como a Vera Cruz, a Atlântida, obras do período silencioso, além do acervo jornalístico e de telenovelas da TV Tupi de São Paulo, estão disponíveis no Banco de Conteúdos Culturais para acesso público.

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