Sessão de abertura, na próxima quinta-feira (19/02), conta com a presença de Henda Ducados, filha da cineasta, e destaca obra preservada pela Cineteca di Bologna com apoio de Martin Scorsese
Crédito: Suzanne Lipinska
O CCBB Rio apresenta a mostra O cinema anticolonial de Sarah Maldoror, dedicada a celebrar o legado e a estética revolucionária da cineasta. A abertura oficial acontece na quinta-feira, 19 de fevereiro, às 17h30, com a primeira exibição na cidade da versão restaurada de "Sambizanga" (1972), obra-prima que retrata a resistência angolana contra a polícia secreta portuguesa.
O longa foi preservado pela Cineteca di Bologna e pela World Cinema Foundation, sob o incentivo de Martin Scorsese, e sua sessão inaugural será enriquecida pelos comentários de Henda Ducados, filha da diretora, que compartilhará detalhes sobre a memória e o impacto humanitário da produção. A pesquisadora e professora Janaína Oliveira também estará presente para a ocasião.
Sarah Maldoror (1929-2020) iniciou sua carreira dando visibilidade às lutas pela independência da África, especialmente próxima dos movimentos de libertação de Angola, da Guiné-Bissau e de Cabo Verde. Sua obra compreende mais de quarenta filmes, entre ficções e documentários, curtas e longas-metragens. Maldoror se destaca, ainda, por utilizar a poética cinematográfica para narrar histórias revolucionárias de um ponto de vista humano, salientando o papel central das mulheres nos processos de emancipação.
Diferenciando-se de panoramas históricos anteriores, a mostra no CCBB RJ configura-se como a ocupação mais profunda e inédita da obra da cineasta no país, oferecendo ao público a oportunidade de mergulhar em uma filmografia que equilibra o rigor político com uma estética refinada, algo que a tornou referência para gerações de realizadores ao redor do mundo. A programação reúne 24 títulos – 14 de Sarah Maldoror e 10 de outros realizadores.
A abertura se dará com a exibição de “Sambizanga”. Produzido em 1972 e premiado no Festival de Berlim, é o longa-metragem mais popular de Sarah Maldoror, onde acompanha um homem que é preso injustamente e torturado após ser suspeito de pertencer a um grupo revolucionário. Marcada para às 17h30, a sessão contará com a presença para diálogo com o público e Henda Ducados, filha caçula da cineasta e autora de ensaios para o jornal feminista Another Gaze.
Dentre as produções de outros realizadores, há desde filmes em que Maldoror trabalhou como assistente, como o célebre “A Batalha de Argel” (1966), de Gillo Pontecorvo, até obras como “Sem sol” (1982) e o episódio 7 da série “A herança da coruja” (1989), de Chris Marker, que contêm imagens filmadas por ela.
Sarah Maldoror deixou mais de quarenta
realizações, além de outros quarenta projetos inacabados. Jamais filmado, o
roteiro de “As garotinhas e a morte” ganha uma leitura dramática no dia 1º de
março, dirigida pela cineasta baiana Safira Moreira. Dela, a mostra O cinema
anticolonial de Sarah Maldoror também exibe “Cais” (2025), seu primeiro
longa-metragem. A intenção é chamar atenção para paralelos entre o cinema
de Sarah Maldoror e a obra de cineastas negras da América Latina. A programação
de O cinema anticolonial de Sarah Maldoror também contempla o curso
dividido em duas partes Arquivos do cinema de mulheres, ministrado por Anita
Leandro e Ana Paula Alves Ribeiro. As inscrições se darão por ordem de chegada.
A mostra O cinema anticolonial de Sarah Maldoror tem curadoria de
Lúcia Monteiro, Izabel de Fátima Cruz Melo e Letícia Santinon. “Acreditamos
muito no encontro dos filmes da Sarah Maldoror com o público do Rio de Janeiro.
Há diversos paralelos entre as realidades africanas e afro-diaspóricas que ela
filmou, na África, nas Antilhas e na Europa, e no Brasil”, diz Lúcia
Monteiro.
O projeto conta com patrocínio do Banco do
Brasil e realização do Governo do Brasil e acontecerá também no CCBB São Paulo
(de 21 de fevereiro a 22 de março) e no CCBB Salvador.
FILMES DA PROGRAMAÇÃO
A batalha de Argel
La battaglia di Algeri, Gillo Pontecorvo, 1966, 121 minutos, Argélia e
Itália. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Nos anos 1950, o medo e a violência aumentam à medida que o povo da
Argélia luta pela independência do governo francês.
Aimé Césaire, a máscara das palavras
Aimé Césaire, the mask of words, Sarah Maldoror, 1987, 47 minutos,
Estados Unidos, Martinica. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Dez anos após realizar seu primeiro filme em torno do poeta
surrealista, dramaturgo, ativista e político martinicano Aimé Césaire, Sarah
Maldoror volta a esta figura na ocasião em que recebe uma importante homenagem
nos EUA. Ideólogo do conceito de "negritude", na entrevista que
concede a Maldoror, Césaire fala de sua trajetória, reflete sobre história,
colonialismo, preconceitos e sobre o papel da poesia.
Aimé Césaire - un homme une terre
Aimé Césaire - un homme une terre, Sarah Maldoror, 1976, 52 minutos,
França, Martinica. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Aimé Césaire foi surrealista, ensaísta, ativista e um dos fundadores
do movimento da Negritude, uma corrente artística e política progressista que
defendia a cultura negra, fortemente ligada a ideais marxistas e anticoloniais.
Alma no olho
Alma no olho, Zózimo Bulbul, 1973, 11 minutos, Brasil. Classificação: 14
anos.
Sinopse: Metáfora sobre a escravidão e a busca pela liberdade por meio da
transformação interna do ser, em um jogo de imagens de inspiração concretista.
Cais
Cais, Safira Moreira, 2025, 70 minutos, Brasil. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Dois meses após o falecimento de sua mãe Angélica, Safira viaja em
busca de encontrá-la em outras paisagens. Num curso fluvial, o filme percorre
cidades banhadas pelo Rio Paraguaçu, na Bahia, e pelo Rio Alegre, no Maranhão,
para imergir em novas perspectivas sobre memória, tempo, nascimento, vida e
morte.
Carnaval no Sahel
Un carnaval dans le Sahel, Sarah Maldoror,
1979, 23 minutos, Cabo Verde. Classificação: 14 anos.
Sinopse: O Carnaval é um evento e uma festividade em que os limites podem ser transgredidos em um contexto repleto de música, sensações e texturas. Neste filme, ele é também o ponto de partida para uma abordagem sobre a história da cultura negra e do colonialismo, com conceitos de identidade e negritude ocupando o centro da cena.
Curtas de Sara Gómez
Ilha do tesouro
Isla del tesoro, Sara Gómez, 1969, 9 minutos, Cuba. Classificação: 14
anos.
Sinopse: Uma curta evocação poética de Sara Gómez sobre a Ilha de Pinos, a ilha
onde Fidel Castro foi preso por Batista e onde a revolução constrói uma nova
sociedade. O filme apresenta uma justaposição da prisão Presídio Modelo com a
produção de cítricos.
Uma ilha para Miguel
Una isla para Miguel, Sara Gómez, 1968, 22 minutos, Cuba. Classificação:
14 anos.
Sinopse: Miguel, um de 12 filhos oriundos de um bairro pobre de Havana, é
enviado pela família para a "Isla de Pinos", para se tornar um novo
homem. Gómez aponta a sua câmara para este território, para onde os
marginalizados (jovens, negros, pobres, homossexuais, religiosos, hippies) eram
enviados para trabalho e reeducação forçados.
Na outra ilha
En la otra isla, Sara Gómez, 1968, 41 minutos, Cuba. Classificação: 14
anos.
Sinopse: Sara Gómez entrevista habitantes da Ilha da Juventude, em Cuba (então
conhecida como Ilha de Pinos), capturando suas perspectivas sobre diversas
questões sociais.
E os cães se calavam
Et les chiens se taisaient, Sarah Maldoror, 1976, 13 minutos, França.
Classificação: 14 anos.
Sinopse: Peça teatral cuja narrativa foca na rebelião de um homem contra a
escravização de seu povo, filmada no interior do Musée de l'Homme, em Paris.
Com atuações de Gabriel Glissant e Sarah Maldoror.
Elles
Elles, Ahmed Lallem, 1966, 22 minutos, Argélia. Classificação: 14 anos.
Sinopse: No período pós-independência, estudantes argelinas do ensino médio
falam sobre suas vidas e comentam como vislumbram o futuro, a democracia e o
seu lugar na sociedade.
Em Bissau, o carnaval
Carnival en Guinée-Bissau, Sarah Maldoror, 1980, 13 minutos,
Guiné-Bissau. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Um curta-metragem documental que aborda como os habitantes da
Guiné-Bissau enxergam sua identidade e cultura negra, tendo como pano de fundo
a celebração anual do Carnaval.
Fogo, uma ilha em chamas
Fogo, l'île de
feu, Sarah Maldoror, 1979, 23 minutos, Cabo Verde, França.
Classificação: 14 anos.
Sinopse: A Ilha do Fogo, em Cabo Verde, é o cenário deste documentário dos anos
70 produzido pelo governo revolucionário do novo país, no qual a diretora optou
por uma abordagem antropológica. O filme lança um olhar belíssimo sobre uma
nação no início de sua independência.
Léon G. Damas
Léon G. Damas, Sarah Maldoror, 1995, 24 minutos, França. Classificação:
14 anos.
Sinopse: Um curta sobre o cofundador da revista L'Étudiant Noir, que promoveu a
conscientização cultural negra, colaborador da Présence Africaine, poeta,
deputado guianense, representante da UNESCO e combatente da resistência
francesa.
Louis Aragon, uma máscara em Paris
Un Masque à Paris: Louis Aragon, Sarah Maldoror, 1978, 13 minutos,
França. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Sarah Maldoror entrevista, neste documentário, Louis Aragon, poeta e
figura fundamental do surrealismo francês. Ao mesmo tempo, questiona a forma
como o movimento surrealista – nos períodos entre e pós-guerra – encarou a
questão racial, do “outro” e da afirmação de outras identidades.
Monangambé
Monangambeee, Sarah Maldoror, 1968, 16 minutos, Angola. Classificação:
14 anos.
Sinopse: Os abusos dos traficantes de escravos portugueses em sua colônia de
Angola são retratados por meio da tortura de um prisioneiro, fundamentada na
ignorância e na incompreensão.
O hospital de Leningrado
L'hôpital de Leningrad, Sarah Maldoror, 1983, 58 minutos, França.
Classificação: 14 anos.
Sinopse: Uma história de prisão política ambientada em um hospital
psiquiátrico, onde a polícia estatal de Stalin colocava seus opositores. A
narrativa é fiel ao texto original, um conto do escritor russo Victor Serge.
O legado da coruja - Episódio 7
L'héritage de la chouette - "Logomachie ou Les mots de la tribu",
Chris Marker, 1990, 27 minutos, França. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Cineastas ensaístas como Marker e Godard adoram jogos de palavras.
Aqui, conforme as imagens mostram como vocábulos de origem grega permeiam a
nossa mídia, as placas de rua e até mesmo os grafites, mergulhamos, sob uma
perspectiva semiótica, nas bases da própria fala.
Ôrí
Ôrí, Raquel Gerber, 1989, 100 minutos, Brasil. Classificação: 14 anos.
Sinopse: Um olhar sobre o movimento negro brasileiro entre 1977 e 1988, a
partir da relação entre o Brasil e a África.
Prefácio a fuzis para Banta
Des fusils pour Banta, Sarah Maldoror, 1970, 85 minutos, Angola.
Classificação: 14 anos.
Sinopse: O papel das mulheres na luta pela libertação da Angola negra de seus
governantes colonialistas portugueses brancos.
René Depestre, poeta haitiano
René Depestre, poète haïtien, Sarah Maldoror, 1981, 5 minutos, França.
Classificação: 14 anos.
Sinopse: Pequeno documentário sobre René Depestre, poeta e antigo ativista
comunista, umas das mais importantes figuras da literatura do Haiti.
Sambizanga
Sambizanga, Sarah Maldoror, 1972, 97 minutos, Angola, França.
Classificação: 14 anos.
Sinopse: Domingos é membro de um movimento de libertação africano, preso pela
polícia secreta portuguesa, após eventos sangrentos em Angola. Ele não trai
seus companheiros, mas é espancado até a morte na prisão, e sem saber que ele
morreu, sua esposa percorre diversas prisões, tentando em vão descobrir o seu
paradeiro.
Sem Sol
Sans soleil, Chris Marker, 1983, 104 minutos, França. Classificação: 14
minutos.
Sinopse: Uma mulher narra os escritos contemplativos de um viajante do mundo
experiente, com foco no Japão contemporâneo.
Uma sobremesa para Constance
Un dessert pour Constance, Sarah Maldoror, 1981, 63 minutos, França.
Classificação: 14 anos.
Sinopse: Nos anos 70, Bokolo e Mamadou, varredores na cidade de Paris, buscam
uma maneira de custear o retorno para casa de um de seus companheiros doentes.
SERVIÇO
Mostra O cinema anticolonial de Sarah Maldoror
Período: 19 de fevereiro a 16 de março de 2026
CCBB Rio de Janeiro - Cinema I (térreo)
Entrada Gratuita
Ingressos disponíveis a partir das 9h do dia de cada sessão/atividade na
bilheteria física e no site do CCBB
Classificação indicativa: 14 anos

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