“Val”, curta-metragem brasileiro, ganha prêmios e será exibido em festivais internacionais


O ano de 2021 já provou que é o ano das mulheres no cinema. Com grandes produções com mulheres protagonistas como Cruella e Viúva Negra gerando grandes receitas e, nos bastidores, o feminino brilhando como Chloé Zhao levando o Oscar de melhor direção, Ursula Monteiro viu a oportunidade perfeita para dar o pontapé inicial no seu sonho de roteirizar e dirigir produções. “Val”, primeiro trabalho autoral da atriz, diretora e roteirista, já ganhou os holofotes e tem se destacado em festivais internacionais. Selecionado em nove, semifinalista em dois e finalista em outros dois a produção deu a Ursula os prêmios de “melhor direção” e “melhor atriz debutante”, além de levar o troféu de “melhor curta” no New York International Film Awards e Oniros Film Awards.

“Entrar nos festivais é muito legal, a gente não tem realmente noção da qualidade do filme só com a opinião de amigos, familiares e nossa da produção. Mas quando somos aceitos começa a cair a ficha de que realmente pessoas que não me conhecem estão gostando do projeto, estou muito animada com essa resposta positiva”, conta Ursula.

“Também acho muito importante esse espaço por eu ser uma diretora mulher, o roteiro ser meu também, essa visão feminina, acho que faz bastante diferença no mundo que a gente está vivendo. Principalmente, esse ano, depois da Chloé Zhao ter ganhado o Oscar de melhor direção, a segunda mulher a ganhar na história da premiação, e ela me inspira muito. Então, é isso, é hora de ir para cima, fazer acontecer e sonhar grande”, completa.

A produção acompanha o presente e o passado de Valéria- vivida pela própria Ursula- uma fotógrafa que mora no interior e suas incertezas. Dividida entre um amor do passado que volta após anos de prisão mesmo sendo inocente e uma mãe acusada de corrupção que virou comentário na cidade, a personagem tenta se encontrar, se conhecer e tomar a decisão certa para o seu futuro: reatar este romance, seguir a vida como ela está, ou? A terceira opção somente assistindo ao curta.

Além desta busca de autoconhecimento, “Val” também aborda temas importantes que foram amplamente discutidos ou praticamente esquecidos durante a pandemia. Mesmo sendo uma obra fictícia, a obra é baseada em fatos reais. Em março de 2020, no começo da pandemia, 1379 presos fugiram de quatro presídios no interior de São Paulo, apenas metade dos fugitivos foram recapturados e esta situação passou despercebida aos olhos da grande imprensa e, assim, da população. Essa situação é um dos principais pontos dentro do curta.

Outro assunto importante relatado, foi o aborto. Em agosto de 2020, vivemos uma grande comoção quando uma menina de apenas 10 anos, que havia sido estuprada, teve grandes dificuldades em realizar um aborto legal. Mas e as outras mulheres que não ganham destaque na mídia?  De acordo com a organização mundial de saúde, cerca de 500 mil abortos clandestinos são realizados por ano no Brasil, e, a cada dois dias, uma mulher morre vítima de aborto ilegal no país. Esse risco também é retratado na produção.

“Eu acho que a ideia do Val é levantar discussões. Desde a fuga de presos que foi esquecida ao aborto, nós precisamos falar sobre esses assuntos para, então, conseguir construir uma sociedade melhor para todos nós”, explica Ursula. “O número de abortos clandestinos e mulheres morrendo não irá mudar durante um bom tempo. Mas nós mulheres temos que estar confortáveis para se expressar e discutir esse tipo de assunto, sem medo de preconceito ou julgamento dos outros. Temos que contar nossas histórias. Afinal, como vamos mudar uma sociedade  se não há espaço para discussão”, questiona.

“Mas, é importante frisar, que apesar de darem muita força a produção, essas discussões não são o tema principal da produção. A forma como o curta se inicia e termina com o questionamento ‘uma vez me perguntaram: o que eu faria se tivesse apenas mais um dia de vida’ é a maior reflexão que quero que quem assista tenha. No início de 2020, além da pandemia que mudou a vida de todos, perdi uma amiga querida, jovem, para um câncer e isso também ligou uma chavinha em mim sobre onde eu queria estar, o que eu queria viver se não tivesse outra chance. Essa é a maior lição do projeto, se conhecer, olhar para dentro, tomar as rédeas da própria vida e perceber que a felicidade está dentro da gente e não no outro”, completa a artista.

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